ESPECIAL DE DOMINGO: DA ZERO HORA – COMO DEVE FUNCIONAR O COMPLEXO DE GÁS EM RIO GRANDE, APONTADO COMO NOVO MARCO DE INFRAESTRUTURA NO RS

Apresentação do empreendimento do Grupo Cobra a integrantes do governo gaúcho, na Espanha, no ano passado Giane Guerra / Agência RBS

Planta de regaseificação associada a termelétrica deve aliviar um dos principais gargalos do Estado em geração de energia

DA ZERO HORA – MARCELO GONZATTO

A concessão de licenças para a instalação de um complexo à base de gás natural no município de Rio Grande, no sul do Estado, a um custo aproximado de R$ 6 bilhões, é vista por especialistas como um ponto de mudança de patamar do Rio Grande do Sul em termos de infraestrutura.

Consultores ouvidos por GZH apontam que a construção de uma planta de regaseificação associada a uma usina termelétrica deve ter impacto significativo no nível de segurança energética e no poder de atração de novos investimentos.

— Não vejo aspecto negativo nesse projeto, um investimento que o Estado buscava havia muito tempo, e agrega muito à economia tanto pelo prisma da geração de energia elétrica quanto da oferta de gás natural — avalia o CEO e sócio da consultoria especializada Gas Energy, Rivaldo Moreira Neto.

Um dos gargalos ao desenvolvimento gaúcho é a limitação no fluxo de gás por meio do gasoduto Brasil-Bolívia — o diâmetro da canalização só permite a passagem de 2,8 milhões de metros cúbicos ao dia. O projeto original do complexo em Rio Grande, em comparação, prevê até 14 milhões de metros cúbicos diários, ou cinco vezes mais.

— Não se consegue, por exemplo, despachar a termelétrica Sepé Tiaraju (em Canoas) a gás natural, é sempre a diesel, porque o gás não consegue chegar até ali. Seria possível substituir uma geração de energia mais cara e poluente com a possibilidade de injetar gás — exemplifica o consultor.

Para isso, o combustível será transportado em navios para a futura planta industrial em Rio Grande na forma líquida — por meio da diminuição da temperatura e do aumento da pressão, o gás se torna liquefeito e diminui centenas de vezes de volume. A estação de regaseificação a ser erguida pelo Grupo Cobra, com sede na Espanha, voltaria a elevar a temperatura e devolveria o produto ao seu estado original para ser injetado na termelétrica a ser implantada nas proximidades.

 

  1. O combustível chega em navios na forma líquida (Gás Natural Liquefeito, ou GNL) para facilitar o transporte
  2. Os navios atracam em um píer no Superporto de Rio Grande, onde o GNL é injetado em um duto
  3. Pelo duto, o GNL chega a uma unidade de regaseificação em solo, com capacidade para 14 milhões de metros cúbicos de gás ao dia,e volta à forma gasosa;
  4. O gás natural segue para um gasoduto com 8 quilômetros de extensão;
  5. A canalização leva o gás até a futura Termelétrica de Rio Grande, com capacidade de gerar 1.280 megawatts de energia;
  6. A termelétrica deve usar menos da metade do gás disponível. O excedente pode ser encaminhado para outros pontos do Estado

 

Dos 14 milhões de metros cúbicos potenciais da unidade de regaseificação, pouco menos da metade seria consumida pela termelétrica de Rio Grande. O restante, enquanto não se constrói um gasoduto rumo à Região Metropolitana, poderia ser distribuído por embarcações, por exemplo.

Sócio-fundador da consultoria do setor petroquímico MaxiQuim, João Luiz Zuñeda aponta ainda que a multiplicação na oferta de gás deve estimular a atração de investimentos que dependem da garantia de oferta energética a longo prazo.

— Com esse empreendimento, o Rio Grande do Sul fica com a fronteira aberta para a entrada de gás natural, sem ter de esperar por ampliação do gasoduto Brasil-Bolívia ou da vinda do produto da Argentina — observa Zuñeda.

O especialista em petróleo aponta que a limitação de infraestrutura era um ponto negativo nas análises de possíveis investidores em negócios no RS:

— Um dos fatores avaliados por investidores era o nosso gargalo energético. Agora, isso vai diminuindo, e pode estimular a vinda de empreendimentos em áreas como plástico, borracha, metalmecânica, além de permitir uma melhor distribuição de energia para o agronegócio.

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