ARTIGO – A LOGÍSTICA REAL: TECON E PORTO DE RIO GRANDE

A LOGÍSTICA REAL: TECON E PORTO DE RIO GRANDE

Paulo Gastal Neto*

Muito se fala no novo Porto de Arroio do Sal como uma ideia fenomenal para o fomento da logística do Rio Grande do Sul. O imaginário passa a ser uma realidade em detrimento do palpável,  do que já está posto e funcionando dia após dia, ano após ano. Políticos das mais variadas matizes, sedentos de promessas em tempos de eleição, se debruçam em enaltecer um ‘projeto’ ao invés de consolidar uma realidade. Enquanto isso o sul do RS trabalha quieto e investe no futuro, mas também no hoje. Apesar dos agentes do ‘mau agouro’ sempre de plantão.

Em tempos que exigem eficiência máxima e responsabilidade estratégica, cabe sim questionar: o estado realmente precisa de um novo porto do zero ou precisa potencializar o gigante que já possui e que está se modernizando? A resposta não veio do governo nem da classe política e sim do próprio mercado. O recente anúncio de que o Terminal de Contêineres (Tecon) Rio Grande receberá mais de R$ 1,1 bilhão em investimentos até 2030 enterra qualquer argumento técnico sobre a necessidade de pulverizar recursos em novas aventuras portuárias no litoral.

Apostar em Arroio do Sal sob a justificativa de “evitar gargalos” ignora a realidade factual e os movimentos da economia global. O Porto de Rio Grande não é apenas uma estrutura consolidada ao longo do tempo e de alta afirmação no Sul do Brasil; ele é um complexo vivo, em plena expansão e com capacidade de sobra para absorver a demanda reprimida de todo o Cone Sul.

O investimento anunciado pela operadora Wilson Sons foca exatamente no que o comércio internacional exige: escala e modernização. O projeto prevê a ampliação do cais de 900 para 1.200 metros, o que permitirá a operação simultânea de até três navios da classe New Panamax — os gigantes das rotas globais de longo curso e sem custos ambientais adicionais. Além disso, a pavimentação de 180 mil metros quadrados de retroárea, a compra de guindastes de pátio (RTGs) e tratores elétricos automatizados mostram que Rio Grande já está fazendo a transição para a eficiência tecnológica que Arroio do Sal apenas promete no papel.

Há também o fator socioeconômico e o ecossistema já consolidado. O Tecon Rio Grande já opera com conhecimento e expertise do Mercosul, escoando o transbordo de cargas da Argentina, Uruguai e Paraguai, e exportando a riqueza da nossa agroindústria, como frango congelado, carne suína, tabaco, arroz e sobretudo celulose. Criar um porto concorrente a alguns quilômetros de distância, no sensível ecossistema do Litoral Norte, ameaça fragmentar essa cadeia logística e enfraquecer o poder de atração de cargas do Rio Grande do Sul. Em logística, dividir nem sempre significa somar e sim encarecer o custo final pela perda de economia de escala.

Além disso, a expansão do cais em Rio Grande vai gerar um impacto social imediato e seguro, pois serão 500 empregos temporários nas obras, 220 postos permanentes na operação e um efeito cascata que deve impactar cerca de 5 mil empregos indiretos na cadeia de transportes, manutenção e serviços. Essa engrenagem humana e técnica já existe no Sul do estado. Ela foi moldada por décadas de tradição portuária e qualificação profissional, algo que não se replica artificialmente em uma região historicamente voltada ao turismo e veraneio.

Como bem destacou a Wilson Sons, a adequação da capacidade portuária diante da transformação do transporte marítimo “deixa de ser diferencial e passa a ser condição para a competitividade”. O Rio Grande do Sul já tem essa condição, e ela se chama Porto de Rio Grande.

O desenvolvimento gaúcho não depende de novas pedras fundamentais ou promessas bilionárias no Litoral Norte, que levarão anos em complexos licenciamentos ambientais. O futuro do nosso comércio exterior depende de garantirmos que o bilhão de reais já destinado a Rio Grande seja potencializado por parte do governo com acessos rodoviários e ferroviários dignos.

Políticos deveriam sim é se preocupar com a realização da obra do Lote 4, empacada há anos e que nem o alinhamento de governos permitiu um desfecho favorável. Chega ser constrangedor testemunhar homens e mulheres, em cargos públicos relevantes, sem uma devida explicação para que não se faça alguns poucos quilômetros de duplicação num dos gargalos mais críticos do Rio Grande do Sul. Talvez um dia entendam que valorizar o sul é a estratégia mais inteligente, barata e sustentável para o Rio Grande do Sul competir globalmente.

*Radialista e editor do www.caminhosdazonasul.com.br

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