

O alerta do Banco do Brasil e o sinal de crise no crédito: o que está por vir?
Vinícius Machado Ferreira*
O resultado do Banco do Brasil acendeu um alerta que vai muito além do mercado financeiro. E, na verdade, esse número deveria chamar a atenção de todos: de políticos, de autoridades, de toda a sociedade, e não apenas de quem trabalha com investimentos. O motivo é simples e preocupante: a inadimplência do cartão de crédito praticamente dobrou.
Para entender o tamanho do problema, é preciso entender o que isso significa na prática. O cartão de crédito é uma das primeiras contas que uma família começa a atrasar quando o orçamento aperta. Quando a renda não fecha, o cartão é deixado para depois. Ou seja, quando a inadimplência do cartão dispara, esse é o primeiro sinal clássico de que as famílias estão com dificuldade real e, muitas vezes, o primeiro sintoma de uma crise mais forte que está por vir.
E o efeito é em cadeia, um verdadeiro efeito dominó. Quando a inadimplência sobe, o banco precisa provisionar mais dinheiro para cobrir possíveis perdas. Com isso, o custo do crédito aumenta e a instituição fica mais seletiva na hora de emprestar. Aí começa a reação em sequência: a pessoa não paga o cartão, o banco perde dinheiro, o banco fica mais conservador, o crédito fica mais caro, tudo fica mais difícil. As empresas pegam menos dinheiro, investem menos, os funcionários consomem menos e a economia começa a desacelerar. No fim, quem sente no bolso é a população.
Vale reforçar que isso não está acontecendo isoladamente com o Banco do Brasil. O mercado já vinha observando com muita atenção a qualidade das carteiras de crédito dos bancos brasileiros, principalmente diante dos juros elevados que o país vive hoje. E o Brasil tem a segunda maior taxa de juros real do mundo, um dado que não pode ser esquecido. Nesse cenário, a deterioração da linha de crédito mais arriscada, que é justamente o cartão, acende ainda mais o sinal de alerta.
Os números ajudam a dimensionar o problema. No Banco do Brasil, a inadimplência acima de 90 dias chegou a 6% no segundo trimestre, sobre uma carteira de crédito que passa de 1,3 trilhão de reais. E não estamos falando apenas de pessoas físicas. As empresas também estão sentindo o peso do juro elevado e o custo financeiro de uma economia que precisa continuar crescendo para sustentar esse nível de endividamento.
E tem mais um agravante: este é um ano eleitoral. O mercado vai ficar ainda mais atento às decisões de política fiscal e de juros. Se a percepção de risco fiscal aumentar, os juros podem continuar elevados por mais tempo e aí, naturalmente, o acesso ao crédito fica muito mais restrito. E crédito caro significa mais dificuldade de pagamento, mais inadimplência, mais provisões para os bancos e bancos ainda mais preocupados com risco, que emprestam menos.
Ou seja, é um ciclo que se retroalimenta: juros altos pressionam o orçamento, o orçamento apertado gera inadimplência, a inadimplência encarece o crédito e o crédito caro aperta ainda mais o orçamento. O Banco do Brasil, aliás, é só a ponta visível de um problema que é sistêmico. A ação da instituição, inclusive, cai cerca de 17% no acumulado deste ano, refletindo essa preocupação.
A pergunta que fica é: até onde isso vai chegar? E a resposta depende, em grande parte, das decisões de política econômica nos próximos meses. Por enquanto, o recado do mercado é claro: atenção máxima à qualidade do crédito, porque o primeiro sinal de uma crise já apareceu, e veio pelo cartão de crédito.
*Especialista em Investimentos, Expertise em Gestão e Planejamento Financeiro