

O AR ESTARÁ PURO SOBRE A FOME E O DESEMPREGO
Paulo Gastal Neto*
Tudo resolvido: o ar ficará puro no céu do sul do RS. Maravilha, afinal somos um país que não necessita de empregos, de energia, de investimentos, enfim de atividades que alcance alguma dignidade aos nossos irmãos dessa metade sul. O que interessa é o ar puro lá em cima. Aqui no chão, pelas ruas, pelas casas, pelos comércios, teremos o desemprego e as dificuldades em pagar a alimentação, a conta do armazém, a fatura do supermercado e os tributos.
Mas o ar será puro.
Ao mesmo tempo, as ONGS faturarão mais ainda com sua a vitória sobre os ‘marginais’ da poluição, verão a bancarrota dos delinquentes geradores de empregos e seus asseclas. Essas organizações, defensoras da vida, de longe e em confortáveis gabinetes, terão então ainda mais argumentos para postularem verbas polpudas junto a organismos internacionais e continuar ‘mamando’ nas tetas governamentais.
Mas o ar estará puro.
Pouco interessam as centenas de empregos perdidos. Como somos mesmo uma região que luta contra dificuldades de toda ordem, uma a mais não fará diferença, devem pensar os ambientalistas que vão salvar o planeta começando por Candiota, pois lá o ar estará puro.
As crianças, os filhos dos mineiros, as esposas dos que trabalham na usina, os que vivem o dia a dia de um dos complexos energéticos mais importantes e alternativos do RS, perderão nutrição e deixarão de ter uma retaguarda essencial para as suas vidas. Infância prejudicada, mudanças compulsórias, vidas abaladas, mas o ar estará puro. Purifique-se o ar puritanos do bem!
Não estão nem aí e nem se importam que aquela usina é o motor econômico de Candiota. Que se dane a arrecadação financeira que responde por cerca de 40% do bolo municipal. Que percam os seus empregos os chefes de família — são cerca de 500 trabalhadores diretamente afetados. Não se leve em consideração os setores indiretos (comércio, transporte, serviços), onde estima-se que mais de 5 mil empregos podem ser prejudicados, o que é dramático considerando que a população local é de cerca de 11 mil habitantes.
Mas o ar estará puro para eles.
E tudo isso em decorrência da suspensão das licenças de funcionamento da Usina Termelétrica Candiota III e da Mina de Carvão Mineral Candiota. Bem aqui no coração da região sul/fronteira. A decisão da Justiça Federal de Porto Alegre, foi movida por entidades ambientalistas que defendem o ar puro, mesmo que os licenciamentos concedidos pelo Ibama e pela Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler), estivessem com validade. Na sentença a classificação: um “litígio climático de cunho estrutural”. No entendimento, haveriam ‘lacunas’ acerca da transição da mineração de carvão e da produção de energia via termelétricas. Isso é o que importa aqui na Suíça.
A preocupação: as operações da Mina Candiota e da Usina Candiota contribuem para o aquecimento global, a partir das emissões de gases, que causam danos expressivos ao meio ambiente. A atividade econômica e geração de energia não são levadas em consideração. Que se dane o pai de família, a criança sem proteína, a família sem emprego, a cidade sem poder pagar seus compromissos, o município falindo. Isso não importa.
Lá do alto da superioridade intelectual, moral e da plenitude dos conhecimentos: decreta-se que o ar é o mais importante, os órgãos oficiais, seus técnicos e profissionais são desconsiderados e a ideologia prevaleça. Ibama e Fepam foram condenados a suspender as licenças de Operação da Usina e da Mina, respectivamente. Em caso de descumprimento, foi determinada multa diária de R$10 mil para cada órgão. Ahhh…Cabe recurso para o Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
Desempregados pelas ruas, pedintes pelos becos, crianças desnutridas, famílias despedaçadas, mas o ar estará puro em Candiota.
*Radialista e editor do www.caminhosdazonasul.com.br