
RETA FINAL DO SEGUNDO TURNO E A DISPUTA PELO ELEITOR FORA DA “BOLHA”ANÁLISE POLITICA

Paulo Gastal Neto*
Há 10 dias do segundo turno das eleições no Brasil o cenário atinge um ponto de encruzilhada decisivo e semelhante, ao meu ver, o de quatro anos atrás. Os números consolidados do primeiro turno e as pesquisas que balizam essa reta final capturam uma disputa extremamente parelha, porém marcada por nuances de linguagem e de estratégia de comunicação que podem vir a ser o fiel da balança no resultado final das urnas, no dia 25.
A ligeira vantagem numérica acumulada por Flávio Bolsonaro em pesquisas recentes acendeu o sinal de alerta no núcleo duro da campanha do presidente Lula. Mais do que a variação quantitativa, o que o momento revela que há um choque, uma gritante diferença entre os dois modelos de comunicação de massa. Revela também uma certa dificuldade da candidatura situacionista em furar o teto das bolhas tradicionais e se conectar com as demandas objetivas do eleitorado moderado, de centro-direita que não simpatizam com Bolsonaro.
Há quatro anos, a campanha de Jair Bolsonaro teve uma derrota apertada impulsionada pelo confinamento em seu próprio mundo digital, muito semelhante ao que acontece hoje com a campanha do presidente Lula. A reeleição de 2022 esbarrou na desconexão e demonstrou que priorizar o aceno ao militante já decidido a claque fiel, em detrimento da tentativa de conquistar eleitorado de centro, moderados e do eleitor desiludido cria invariavelmente uma barreira quase que intransponível na reta final do segundo turno.
Neste momento da campanha, o ‘staff’ de propaganda de Lula parece estar fazendo diagnósticos semelhantes, portanto equivocados. Ao longo da campanha a retórica governista ancorou-se fortemente em símbolos históricos e na defesa do legado do passado, da defesa da democracia, de direitos, na constituição, na alteração do modelo de trabalho com a troca da escala, que inclusive poderá ser votada esta semana e isso gerou um visível descolamento das preocupações imediatas do cidadão comum, como o impacto da inflação dos alimentos, o pequeno empreendedor e as novas dinâmicas da economia informal e um tema que hoje soa como música para as classes C e D: a construção de uma ideia que ele possa ter o seu próprio negócio.
Ao focar em pautas com um tom triunfalista, a candidatura de situação enfraqueceu seu apelo junto à juventude e à classe média periférica, segmentos que não respondem à memória dos primeiros mandatos petistas e exigem respostas pragmáticas para o presente.
Enquanto a campanha governista manteve uma estética tradicional e engessada de rádio e TV, o QG de Flávio Bolsonaro apostou em um ecossistema de mídia mais dinâmico, pulverizado e ágil. A performance mais moderna do candidato do PL no ambiente digital não se deve apenas ao certo carisma individual baseado na juventude, mas sim ao grupo de mídia e estrategistas de redes que dão suporte ao seu projeto. Com cortes curtos, linguagem direta e uso intensivo de formatos orgânicos como os Reels, TikTok e podcasts de grande audiência.
Com isso a oposição conseguiu traduzir temas complexos da economia e da segurança pública em narrativas cotidianas para a nova geração de eleitores, haja vista a eleição de Douglas Ruas no Rio de Janeiro. Um Policial Militar com linguagem direta e conectada com a população na questão mais cara para os cariocas: a segurança pública. Esse é o segredo. Conexão clara, simples e direta. Essa eficiência no diálogo com o público jovem criou um contraste gritante: enquanto a oposição fala a língua da agilidade digital, o governismo soa burocrático e distante. A ideia aqui não é fazer juízo de valor sobre o candidato ‘A’ ou ‘B’ e sim apenas uma análise das referências nas propagandas de cada um.
A prova de que há ruídos na campanha situacionista veio esta semana. A desconexão do grupo de mídia de Lula com a realidade das ruas gerou desgastes públicos dentro da própria coordenação de campanha. Críticas diretas do próprio presidente à conduta do seu marketing e do marqueteiro Sidônio Palmeira expuseram a falta de interatividade e a rigidez decisória do comando de comunicação. Em lugar de um diálogo ágil e descentralizado, a comunicação governista acabou refém de aprovações burocráticas e de uma estética ultrapassada. Lula deu broncas específicas em relação a peças de redes sociais com tom considerado excessivamente festivo, contendo figurinhas, emotions e animais. Ele também criticou o uso de termos técnicos de difícil compreensão popular, cobrando mais seriedade para convencer o eleitorado. Essa fritura interna da equipe de marketing na reta final reflete o diagnóstico de que a estratégia está falhando no objetivo de construir pontes com o eleitor não alinhado, o “eleitor do meio”, que define eleições em cenários de forte polarização.
A eleição do dia 25 de outubro se desenha como uma das mais acirradas da história recente. Em um ambiente em que a margem de erro separa a vitória da derrota, as estratégias dos últimos dias serão determinantes: para o presidente Lula, o desafio urgente é abandonar o discurso voltado para a militância e apresentar propostas concretas para o bolso do trabalhador e o futuro dos jovens, reorganizando a comunicação de crise no ar. E para Flávio Bolsonaro a meta será a de consolidar a migração do eleitorado de centro e manter a intensidade nas redes sociais sem cometer deslizes que possam reverter sua menor taxa de rejeição momentânea.
Aquele que conseguir ultrapassar os limites de sua própria bolha comunicacional e convencer o eleitor indeciso de que entende suas dores reais herdará a faixa presidencial nos próximos quatro anos.
*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br