ARTIGO – AS MENTIRAS DE SEMPRE E O FIASCO COP-30

Lula com chefes de Estado e de Governo na ‘foto de família’ da Cúpula do Clima, em Belém (PA): ‘As decisões que tomarmos com relação ao setor energético definirão nosso sucesso ou nosso fracasso na batalha contra a mudança do clima’. Foto: Ricardo Stuckert / PR

AS MENTIRAS DE SEMPRE E O FIASCO COP-30
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Paulo Gastal Neto*
Cop-30 já é um fiasco internacional e uma hipocrisia extraordinária. Era esperado que seria assim, por mais esforços que a ONU tenha feito para minimizar a incompetência brasileira em organizar mega eventos. Mas ela é mais forte e tudo já começa nas ruas da capital paraense sem nenhuma segurança, com assaltos aos participantes, muitos deles até optando por não permanecerem até o dia 21, data do encerramento. Mas existem os que não estão sendo roubados nas ruas, porém saem extorquidos dos bares, restaurantes e hotéis, pagando preços absurdos por alimentação e suas estadias. No centro de imprensa internacional falta água nos sanitários e a conexão de internet cai a todo o momento. Uma garrafinha de água mineral custa R$ 25 para os jornalistas estrangeiros que ficam estupefatos. Já no caso de alguns eventos paralelos se assiste verdadeiros ‘cases’ de fracasso e total desorganização: vide o coquetel, aos poucos chefes de estado que estão em Belém, oferecido pela primeira dama brasileira e que não contou com a presença de nenhum líder. Aliás a ausência deles é uma marca do evento: os presidentes dos Estados Unidos, da China e da Rússia nem cogitaram aparecer. A questão torna-se constrangedora quando se sabe que apenas 17 líderes de Estado e de Governo apareceram. No conteúdo das manifestações assistimos a total falta de conexão entre o discurso e a realidade. Mas nesse caso específico, assim como nas conferências anteriores, nada do que foi dito coube dentro do factível e tudo se repete.
Voltando aos fiasco de Belém: até tradução oficial deixou a desejar. Macron falou em francês para um público que nada entendia, pois não haviam equipamentos nem profissionais para traduzi-lo. E assim vamos indo dentro de um caos bem a moda brasileira nesse tipo de evento. Nem vamos entrar no caso do iate que hospeda o presidente brasileiro e sua comitiva. Despesas viraram segredo de estado para não expor ainda mais as contradições explícitas. Enfim, Belém e a Cop-30  da Organização das Nações Unidas, já são uma vergonha global!
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Na Rio + 20,  em 2012, eu estava lá. A conferência do clima, naquela ocasião, teve como principal documento a declaração chamada “O Futuro que Queremos”. Muito se discutiu o encaminhamento para que o mundo começasse a pensar no término da utilização dos combustíveis fósseis. Hilary Clinton, então secretária de estado dos EUA, em seu pronunciamento no Rio Centro, foi enfática ao colocar que: economicamente essa seria uma tarefa impossível em decorrência das dependências econômicas dos mais diversos setores atrelados a indústria petrolífera.
De lá para cá nada mudou. A economia continuou dando as cartas e falando mais alto e é por isso que os discursos se dissociam da realidade. Os números são astronômicos: tanto na geração de empregos, como na matriz econômica dos mais diversos países, sendo que alguns deles dependem fundamentalmente dos fósseis. Mais do que isso, a movimentação de cargas e modais inteiros de transportes e as frotas imensas alimentadas pela indústria automobilística (que mesmo investindo em carros elétricos) são inesgotáveis. A gasolina e o diesel seguirão, por muito tempo, reinando. Em resumo: é impensável fazer uma troca de matriz energética em curto, médio ou até em longo prazo.
Do Rio fomos para Paris. O Acordo de Paris teve como objetivo central limitar o aumento da temperatura média global a bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais, com esforços para limitá-lo a 1,5°C. Para atingir essa meta, seria imperativo reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, majoritariamente provenientes da queima de combustíveis fósseis. Mais uma vez sem nenhuma perspectiva de consolidação. O acordo fracassou. A economia venceu. Ganhou a banca. Dobraram a aposta para Dubai?
Fomos para Dubai em 2023, na COP-28. Lá, pela primeira vez na história das conferências climáticas da ONU, os quase 200 países participantes concordaram formalmente em “fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis”, em vez de apenas “reduzir” ou “eliminar gradualmente”. Este foi um marco, apesar de não estabelecer um prazo final obrigatório para a eliminação total. Isso mesmo: se combinou tudo, porém não determinou-se uma data. Em resumo: não se avançou. A economia venceu novamente. A banca venceu. Volta-se a estaca zero!
E em Belém? A palavra do Brasil: Mesmo sabendo de todas essas obviedades e tendo recentemente defendido a pesquisa e consequentemente a exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas pela Petrobras, o presidente Lula, na esteira do seu inesgotável populismo aliado a contradição, afirmou ser necessário que os países se afastem de combustíveis fósseis. Tudo de novo. A mesma lenga-lenga. Agora ao lado de uma contradição imensurável. Em seu discurso ele proferiu a seguinte frase: “A Terra não comporta mais o uso intensivo de combustíveis fósseis”. Defende a transição energética baseada em um tripé. Numa vertente, a implementação do acordo firmado em Dubai que prevê triplicar a energia renovável e dobrar a eficiência energética. Numa segunda, a eliminação da pobreza energética. E, por fim, a adesão ao Compromisso de Belém para quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2035 e acelerar a descarbonização dos setores mais desafiadores. Bonito né? Mas é justamente aí que o discurso não cabe dentro da realidade, como escrevi ali em cima. Recentes relatórios de órgãos científicos, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), e agências como a Agência Internacional de Energia (AIE), indicam que a produção e o consumo de petróleo e gás precisam cair drasticamente (cerca de 65% até 2050 para a meta de 1,5°C) para estabilizar o clima. A mesma celeuma do Rio de Janeiro, que na realidade é absolutamente inviável. O papel aceita, mas a realidade não. Qualquer criança de jardim da infância sabe que o fim da utilização dos combustíveis fósseis é uma meta global crucial para combater mudança climáticas, sendo o principal tema das negociações internacionais recentes, porém impossível de cumpri-la. Estão aí os mais diversos entraves, desafios políticos e econômicos. A Realidade é que apesar dos acordos, a transição enfrenta obstáculos consideráveis que são quase que intransponíveis:
1. Dependência Econômica: Muitos países, incluindo grandes produtores, ainda dependem fortemente da receita e da infraestrutura de combustíveis fósseis e argumentam que não podem abrir mão deles imediatamente.
2. Aumento Contínuo da Demanda: Globalmente, o consumo de combustíveis fósseis continua a aumentar, apesar do crescimento dos investimentos em energias renováveis, devido à crescente demanda total por energia.
3. Falta de Consenso: Ainda há divergências políticas entre as nações sobre a velocidade e a equidade da transição, com debates acalorados sobre o financiamento e a responsabilidade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

O fim dos combustíveis fósseis só se transformará em um processo em curso, com o efetivo compromisso de todos e não somente de parcelas do mundo. Essa parte fundamental não entrou na COP-30, pois ela exige vontade política e cooperação global para superar a complexidade e os interesses enraizados na economia fóssil. Desde a adoção do Acordo de Paris, a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética global caiu apenas de 83% para 80″, como disse o próprio presidente Lula.

E quais seriam os caminhos para essa tão decantatada transição?

– Energias Renováveis: Investimentos massivos em energia solar, eólica, hidrelétrica e outras fontes limpas são cruciais.

– Eficiência Energética: Melhorar a eficiência no consumo em todos os setores (transporte, indústria, residências).

– Biocombustíveis: Utilização de fontes de biomassa como alternativa aos combustíveis fósseis, com menor emissão de poluentes.

Ao final de tudo ainda ficará como referência em relação ao tema, a ‘velha’ “Declaração do Rio de Janeiro” que na verdade é o documento principal da conferência anterior, a Eco-92 (ou Rio-92), que estabeleceu 27 princípios fundamentais sobre meio ambiente e desenvolvimento.

Durante a Rio+20, o documento “O Futuro que Queremos” foi aprovado por mais de 190 países e teve como foco a renovação do compromisso político com o desenvolvimento sustentável, abordando dois temas principaisEconomia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável. Nada ou pouco foi feito, por isso a hipocrisia de Belém. Embora o documento final da Rio+20 tenha sido criticado por alguns setores da sociedade civil como uma “declaração de intenções” frágil e sem metas concretas, ele serviu de base para a criação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), lançados em 2015.

Em resumo ficam discursos intermináveis e distantes da realidade do mundo em que vivemos. Sem não ter nada a ver com isso tudo, quem se beneficiou foi o coadjuvante vendedor de coxinha de galinha a R$ 45 reais. Esse vive no mundo real! Do outro lado, os engravatados protagonistas, com seus discursos distantes do homem da coxinha, voltarão para casa emitindo muitos metros³ de 2, além da queima de 3.600 litros de diesel por dia feita pelo iate do presidente e seu séquito. Tudo isso sem nenhum constrangimento.

*Radialista e editor do www.caminhosdazonasul.com.br 

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