ARTIGO – O MEIO E O HOMEM

O MEIO E O HOMEM

Renato Varoto*

Por maior que seja o esforço dos negacionistas não há como desconhecer a influencia da forma e ações da natureza, da qual, por evidente, somos eventuais ocupantes, no modo de vida da humanidade, resultando em sociedades absolutamente diversas, sejam urbanas ou rurais.

Uma análise detalhada pode ser encontrada no livro “Prisioneiros da Geografia”, de Tim Marshall, jornalista e escritor britânico, que tive o prazer de ler, após um presente do amigo Dr. Francisco de Paula Bermudes Guedes. A obra oferece preciosas informações para que possamos melhor entender a atual política global, que tantas vezes nos deixa perplexos. O autor examina desde a Rússia até o Ártico, passando por entes importantes como Índia; Estados Unidos; Oriente Médio e América Latina, dentre outros. Importa salientar que não se trata de qualquer defesa ou oposição do determinismo ambiental, mas apenas o constatar da influência do meio ambiente sobre a estruturação dos aglomerados humanos. Comento apenas em relação ao Brasil.

Diz o Autor: “As limitações da geografia da América Latina agravadas desde o início da formação de seus Estados-nação. Nos Estados Unidos, depois que a terra tinha sido tomada de seus habitantes originais, grande parte dela foi vendida ou dada a pequenos proprietários rurais; já na América Latina foi imposta a cultura do Velho Mundo, de proprietários rurais poderosos e servo, o que levou à desigualdade”.  No Brasil não foi diferente.

O colonizador português dividiu o território brasileiro entre amigos, criando, dentre outros sistemas, as capitanias hereditárias, nas quais o Senhor era dono absoluto, frequentemente cruel, de tudo e todos, o que foi fortemente agravado com a introdução da escravatura.  Tudo era para a Coroa e os Senhores, o trabalhador não tinha direito a nada, inclusive, muitas vezes nem a própria vida. Portanto, a desigualdade social que ainda consome o país surgiu muito antes da Independência, inclusive sacrificando, como o é até hoje os habitantes originais, foram, em grande parte, por não aceitarem ser escravos. Na verdade, o colonizador de ontem foi substituído pelos exploradores de hoje, como traficantes e garimpeiros.

No dizer de Marshall “O Brasil, que ocupa toa uma terça parte do território da América Latins, é o melhor exemplo”, afirmando que apesar de sua dimensão continental o país não dispõe de infraestrutura para ser um país rico. Importante lembrar que desde o início houve a ocupação do litoral, deixando o interior apartado por águas internas; serras e florestas. Ainda hoje grande parte do país vive um isolamento real, na medida em que não dispomos de estradas; vias navegáveis; estradas de ferro e outros meios de interação que permitam um desenvolvimento mais equânime para todo o povo. Ainda temos grande parte da população sem acesso à educação; saúde; moradia; água e outros bens essenciais à dignidade humana. Não se trata de fazer um diagnóstico da situação brasileira, mas uma constatação de como a Geografia influenciou nosso crescimento e a incapacidade de nossos governos vencerem tais barreiras, preocupando-se muito mais com os conflitos políticos do que com o bem estar da população e a melhoria de nossa infraestrutura, sem o que a soberania nacional resta muito vulnerável.

Em síntese, vale a pena ler o livro de Marhall para melhor entender o mundo atual com seus conflitos, contradições e avanços. A linguagem é acessível e ainda vem com dez mapas que facilitam as reflexões sobre a política global, destacando que a edição brasileira foi atualizada pelo Autor.

*Jornalista, advogado e professor e integrante da Equipe Treze Horas.

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