COM NOVA TECNOLOGIA, RS TENTA REABILITAR UTILIZAÇÃO DO CARVÃO

    Mina de Candiota, na região da campanha.

    Distantes da imagem poluidora originada em outros usos, projetos apostam na gaseificação, além de levar desenvolvimento a duas regiões no sul do Estado

    Maior riqueza mineral do Rio Grande do Sul o carvão encontra no projeto de criação de dois polos carboquímicos a nova centelha de esperança para enfim ter seu potencial explorado e gerar desenvolvimento. Sob constante pressão devido à imagem poluidora, o aproveitamento agora planejado não é de geração de energia elétrica a partir da queima, que sofre grande resistência e faz empreendimentos permanecerem no papel.

    A tecnologia a ser empregada é a gaseificação, processo termoquímico que não libera gás carbônico (CO2) e gera matéria-prima para a produção de vários derivados, de fertilizantes a gasolina.

    Com uso crescente principalmente na China devido à pouca oferta de petróleo e gás, o carvão como insumo da indústria química tem, ao menos nas pranchetas, potencial para gerar investimentos de quase US$ 5 bilhões nas regiões do Baixo Jacuí e da Campanha.

    A lógica é simples: usar um insumo abundante e barato, a partir de uma tecnologia que evoluiu muito, para obter produtos hoje totalmente importados e com mercado garantido.

    Para que deslanchem, ainda faltam definições regulatórias importantes na área do gás e o principal em empreendimentos de grande porte: investidores dispostos a apostar pesado no negócio.

    Orçado em cerca de US$ 4,4 bilhões, o polo carboquímico do Baixo Jacuí, capitaneado pela mineradora Copelmi, parece um pouco mais adiantado.

    Prevê um gaseificador, que seria uma espécie de central de matéria-prima, a exemplo de complexos petroquímicos, e três unidades associadas de diferentes produtos. Seria localizado junto a uma mina da empresa a ser aberta entre Charqueadas e Eldorado do Sul. Uma das unidades, para produzir gás natural, tem à frente a própria Copelmi e a gigante coreana Posco, mas a intenção é buscar um sócio majoritário.

    As outras duas plantas seriam para a produção de metanol, utilizado pelas refinarias de biodiesel, e ureia, usada em adubos. Os projetos estão desenhados, mas falta a definição dos empreendedores. Para tentar preencher essa lacuna essencial, a Fiergs vai sediar dias 29 e 30 de novembro evento internacional que tentará reunir grandes investidores, detentores de tecnologia e especialistas. — Temos mercado para tudo o que será produzido. O que nos falta é a tecnologia, disponível no mundo, e capital — resume Paulo Roberto Dias Pereira, analista de planejamento e gestão da Secretaria de Minas e Energia.

    O diretor de novos negócios da Copelmi, Roberto Faria, observa que, embora a China seja a principal inspiração, diferentes países estão recorrendo ao carvão como insumo da indústria química. — A própria Posco tem uma planta semelhante na Coreia do Sul que entrou em operação ano passado — ilustra Faria.

    Conhecedor do projeto do Baixo Jacuí, o consultor Manuel Quintela, da Chemvision, especializado na área, ressalta que, nos últimos anos, a China se viu forçada a melhorar muito a parte ambiental dos projetos por ser obrigada a usar carvão para se tornar competitiva e, ao mesmo tempo, no Estado, existem bons exemplos de recuperação de áreas mineradas.

    O Rio Grande do Sul, acrescenta o especialista, está na ponta do gasoduto Bolívia-Brasil, o que torna incerta solução futura para abastecimento de gás natural. — A situação é complexa para os gaúchos. Por isso, a possibilidade de ter gás extraído do carvão é uma oportunidade de valorizar sua própria matéria-prima, desenvolver sua indústria, gerar desenvolvimento e emprego. A riqueza mineral do Estado é o carvão — ressalta Quintela, cético com outras soluções, como a construção de um terminal de gás natural liquefeito (GNL) em Rio Grande.

    No Baixo Jacuí, onde a exploração de carvão vem caindo devido à desativação de usinas, os projetos renovam as expectativas de movimentar a economia. Por enquanto, a tendência seria de o complexo industrial se localizar em Charqueadas, município que há poucos anos viu emergir e naufragar o sonho da indústria naval.

    — Seria a redenção da região. Algo do nível do polo petroquímico de Triunfo — empolga-se o vice-prefeito de Charqueadas, Edilon de Oliveira Lopes.

    Na Campanha, outro projeto, que tem à frente a fornecedora de insumos siderúrgicos Vamtec, do Espírito Santo, e a Companhia Riograndense de Mineração, prevê investimento de US$ 450 milhões para produzir metanol.

    O gerente de projetos da empresa capixaba, José Amaro, admite que ainda é preciso encontrar um sócio para o empreendimento. Outro entreve é a restrição de crédito imposta pelo BNDES ao setor do carvão, mineral que tem depositado, no Rio Grande do Sul, 90% das reservas de 7 bilhões de toneladas do país.

    Mudanças favoráveis

    A produção de gás natural é a âncora do projeto. Para que se viabilize, falta a definição de dois pontos principais. O primeiro diz respeito à Sulgás.

    A empresa recebe hoje gás natural da Bolívia, mas o contrato, firmado com a Petrobras, termina em 2020. Como o país vizinho fez poucos investimentos em prospecção nos últimos anos, há no mercado desconfiança em relação à capacidade de abastecer o mercado brasileiro no futuro. Assim, a empresa terá de definir de onde virá o gás que vai distribuir nos próximos anos. Questionada, a Sulgás informou que, após esse período, “a companhia pretende realizar chamada pública para aquisição de gás natural, compatível com as normas técnicas e regulatórias do setor”. O procedimento abre a disputa para interessados em entregar o insumo no Estado.

    O outro ponto se refere ao novo marco regulatório do gás natural do país. Mudanças de regras estão a caminho. Entre elas, possivelmente o fim do monopólio da Petrobras e a criação de um mercado livre, como existe no setor elétrico.

    Nesse novo modelo, está em discussão a possibilidade de as tarifas serem mais caras à medida que o consumidor esteja mais distante da fonte produtora. Como está no fim do gasoduto Bolívia-Brasil, o Rio Grande do Sul pagaria mais caro. Por isso, ter uma fonte próxima de Porto Alegre seria uma alternativa competitiva.

    Programa de incentivo

    O Piratini enviou em setembro à Assembleia projeto que lei que cria a Política Estadual do Carvão Mineral. Os benefícios serão restritos a duas regiões, os polos carboquímicos do Baixo Jacuí (Arroio dos Ratos, Barão do Triunfo, Butiá, Charqueadas, Eldorado do Sul, General Câmara, Minas do Leão, São Jerônimo e Triunfo) e Campanha (Aceguá, Caçapava do Sul, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra e Lavras do Sul).

    Nesses municípios, o Estado vai conceder incentivos fiscais a empresas que se destinem à extração e ao beneficiamento do carvão mineral e derivados. Há ainda o comprometimento em facilitar o crédito.

    O Estado pretende ainda incentivar projetos de aproveitamento das cinzas do carvão para utilização e substituição de materiais na área da construção, como fabricação de tijolos, blocos de concreto e sub-base de pavimentação em estradas, entre outros exemplos.

    ESTIMATIVA DE EMPREGOS

    Mina de Guaíba: 1 mil.

    Plantas carboquímicas: entre 200 e 250 em cada unidade, com um potencial de até 750 postos diretos.

    Construção: 4 mil.

    Previsão de início da construção: 2019.

    Começo da operação: 2022.

    A LÓGICA DO NEGÓCIO

    • Gás natural mais barato ampliaria a competitividade do Estado.

    • Aproveitamento do carvão sem a queima torna alternativa ambientalmente mais amigável.

    • Projetos pioneiros poderiam atrair novos investimentos para o polo carboquímico.

    • Demanda hoje reprimida de gás natural no Estado.

    • Dúvidas quanto ao aumento da oferta de gás pelo gasoduto Bolívia-Brasil ou a contrução de um terminal de gás natural liquefeito no Estado (GNL).

    • Produção local de gás natural, ureia e metanol, hoje importados, gerando empregos no Estado.

    EXEMPLO CHINÊS

    • Vem do gigante asiático a inspiração para o projeto gaúcho. A China contava, em 2014, com 200 milhões de toneladas/ano de carvão sendo utilizados para gaseificação, 86% da capacidade mundial.

    • Em 2013, estimava-se que até 300 gaseificadores novos entrariam em operação.

    • Países como Estados Unidos, Indonésia, Botswana e Austrália também têm recorrido à gaseificação do carvão para produzir ureia, metanol e até gasolina.




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